Agnus Dei (V)
(...) Esquivava-me dizendo que tinha lido algo sobre o assunto no jornal alguns dias antes, posto que a justificativa religiosa estava fora de questão pois nem primeira comunhão tinha feito e só freqüentava as igrejas em casos de obrigação, e ela sabia que eu detestava tudo isso.
Até este momento meu fetiche, digamos assim, não influenciava consideravelmente em minha vida cotidiana, com exceção das reclamações sutis de minha mulher sobre a drástica redução de nossas relações sexuais, que eu só conseguia manter após alguns minutos trancado no banheiro com uma de minhas relíquias escondida dentro do jornal. Comportamento estranho que a pobre aceitava resignada, sem saber o que se passava.
Como as revistas me excitassem cada vez menos, comecei a comprar pequenas estátuas, que tinham o inconveniente de serem difíceis de se esconder, motivo pelo qual acumulei poucas delas.
Foi então que nos convidaram para padrinhos de um importante casamento. No dia e horário indicados no convite estávamos eu e minha esposa na bela igreja matriz de nossa cidade, cercados da nata da sociedade e, para meu enorme desespero (não maior que meu júbilo), de uma coleção ímpar de imagens pintadas, entalhadas, esculpidas, deliciosas. (...)
Escrito por Sr. Torremolinos às 14h46
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